A condição popularmente denominada “Texting Thumb” refere-se, do ponto de vista clínico, à Tenossinovite de De Quervain, uma inflamação que acomete o primeiro compartimento extensor do punho. Este compartimento abriga os tendões do músculo abdutor longo do polegar (APL) e do extensor curto do polegar (EPB), que deslizam através de uma bainha fibro-óssea sobre a estilóide radial. O uso repetitivo de smartphones exige movimentos de abdução e extensão do polegar em amplitudes extremas para alcançar a interface da tela, gerando um estresse mecânico constante sobre o retináculo extensor e o tecido sinovial subjacente.
A patogênese dessa condição envolve o espessamento da bainha tendinosa devido a microtraumas por cisalhamento, o que resulta na diminuição do espaço intrabainha e no aumento da fricção tendinosa. Este processo inflamatório crônico pode levar à metaplasia fibrocartilaginosa da bainha, dificultando o deslizamento suave dos tendões e causando a sintomatologia clássica de dor e edema na região da estilóide radial. Em casos avançados, o paciente pode apresentar o fenômeno de “gatilho” ou travamento, indicando uma estenose significativa do canal osteofibroso que impede a excursão tendinosa fisiológica.
O diagnóstico diferencial é uma etapa crítica na prática do cirurgião de mão, pois a dor na base do polegar pode ser confundida com a Rizartrose (artrose trapeziometacarpiana) ou com a Síndrome de Intersecção. O teste de Finkelstein permanece o padrão-ouro clínico, provocando dor lancinante quando positivo. Exames de imagem, como a ultrassonografia de alta resolução com transdutores de 15-18 MHz, podem confirmar o diagnóstico ao demonstrar o espessamento do retináculo e a presença de líquido peritendinoso ou neovascularização ao Doppler colorido no compartimento afetado.
O manejo inicial foca na redução da inflamação através da imobilização funcional com órteses termoplásticas que incluam o polegar, associada ao uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). No entanto, a modificação da biomecânica do paciente é o fator determinante para o sucesso a longo prazo; o uso de comandos de voz e a digitação ambidestra são recomendações ergonômicas essenciais. Em quadros recalcitrantes, a infiltração local com corticosteroides pode ser indicada para reduzir o edema tecidual e restaurar a mobilidade, embora deva ser realizada com cautela para evitar atrofia cutânea ou despigmentação.
Para casos refratários ao tratamento conservador após 6 meses, a intervenção cirúrgica torna-se a conduta de escolha. A liberação cirúrgica consiste na abertura longitudinal do primeiro compartimento extensor, permitindo a descompressão dos tendões. É fundamental que o cirurgião esteja atento à presença de variações anatômicas, como septos acessórios internos que separam o APL do EPB, os quais, se não liberados, são a causa principal de persistência dos sintomas no pós-operatório.
Referências Bibliográficas:
- ALI, M. et al. De Quervain’s Tenosynovitis: A Review of the Rehabilitative Management. Journal of Hand Therapy, 2021.
- WOLFE, S. W. et al. Green’s Operative Hand Surgery. 8th Edition. Elsevier, 2021.
- Surgical Technology International. The Impact of Mobile Device Use on the Hand and Wrist: A Biomechanical Study. Vol. XXV, 2014.
- Journal of Bone and Joint Surgery (JBJS). Etiology of Stenosing Tenosynovitis in the Digital Era. 2019.